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terça-feira, 10 de maio de 2011

Alice não sabia de si. Nunca mais saberia de si. Alice não existia, apenas vivia um dia atrás do outro. Alice era água limpa de cuia que queria lavar um passado qualquer, longíquo, inesquecível, ferino, mas também feliz.
Alice não era. Mas, pulsava, pulsava, pulsava. E só.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Esther extraíra há anos uma força gigantesca para sair do estágio letárgico em que passou a encontrar-se após a partida de Janaína e após a...Isso ela não conseguia falar nem mesmo a ela...Suas forças reunidas foram suficientes para que ela nunca mais pensasse. Acostumou-se ao silêncio e a ver a vida passando diante de seus olhos. Era voyeur de si mesma. Voyeur de um passado que insistia em não passar e que por isso se presentificava ad infinitum...
Colhidas as forças, saiu de dentro de si e voltou. Voltou para um mundo sem Janaína, sem sua barriga de grávida, sem suas atitudes de adolescente rebelde. Era muita falta. Ela era só buracos. Caminhou discretamente pelas ruas como que para provar que ela podia, que o seu mundo era reconstituível e que ela merecia, apesar de tantas dores desatinadas, apesar das dores lancinantes, ela merecia estar ali, caminhar, sentir o vento na cara, a roçar-lhe a cara (de leve ou com força), mas ter estado presa era o contraponto dessa consciência de merecimentos. Ter estado presa, literalmente presa, não lhe arrancou a lancinante dor. Não lhe arrancou Janaína da cabeça. Não lhe arrancou aquela lembrança, a mais funda, a menos dizível, a nunca pronunciada, a apavorante lembrança de.
Esther pensava nessas coisas, pensava no impensável quando o telefone tocou.

sábado, 23 de abril de 2011

Alice, que não compreendia o amor simplesmente porque sentia medo e porque achava que compreender é justificar, Alice encheu taças e taças de vinho tinto, espesso e embebedou-se. Dormira pesadamente. Perdera a hora para mais um dia em que sentia como se nada fizesse e que para ela era como não ter vivido. Permitiu-se ficar de ressaca, vestida em pijamas, em cima da cama, com o pensamento ela mesma não quereria saber em que lugar.
Esther não entendia que força era aquele que possuía Janaína para entrar e sair de sua vida quando assim desejasse ou ainda mesmo quando nem mais desejava. Esbravejou contra dois ou três pensamentos que a atingira. Aquele mês, desde a conversa com Gisela, desde que sua irmã trouxera à tona aquele assunto, tinha sido um inferno. Voltara a fumar. Voltara a percorrer as ruas todas. Voltara a ouvir o choro abafado da criança que ela não permitia falar o nome, não permitia que...Gisela sofria, sim, mas onde o direito de fazer aquilo? Onde? Lembrara-se, Esther, de que ficara trancada por tempos, e...Não. Decididamente não mais. Mas, como?

As palavras e os sentimentos de Esther me chegavam assim: entrecortados e confusos. Escrever essas três mulheres não seria nada fácil. E eu? Me pergunto a mim: e eu, onde eu?
Gisela sangrava. Doía, doía, doía. Levou a mão até o peito e depois olhou os dedos para ver se havia sangue. Não havia. O toque entre os dedos lembrou-lhe carícias antigas e, depois, a solidão. Gastou tempo infindo com o gesto nas mãos e na cara, uma expressão vazia. Passadas duas horas, Gisela foi para o quarto e deitou-se feito moribunda. Cruzou as mãos por sobre o peito e pensou: E se?