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segunda-feira, 9 de maio de 2011

Esther extraíra há anos uma força gigantesca para sair do estágio letárgico em que passou a encontrar-se após a partida de Janaína e após a...Isso ela não conseguia falar nem mesmo a ela...Suas forças reunidas foram suficientes para que ela nunca mais pensasse. Acostumou-se ao silêncio e a ver a vida passando diante de seus olhos. Era voyeur de si mesma. Voyeur de um passado que insistia em não passar e que por isso se presentificava ad infinitum...
Colhidas as forças, saiu de dentro de si e voltou. Voltou para um mundo sem Janaína, sem sua barriga de grávida, sem suas atitudes de adolescente rebelde. Era muita falta. Ela era só buracos. Caminhou discretamente pelas ruas como que para provar que ela podia, que o seu mundo era reconstituível e que ela merecia, apesar de tantas dores desatinadas, apesar das dores lancinantes, ela merecia estar ali, caminhar, sentir o vento na cara, a roçar-lhe a cara (de leve ou com força), mas ter estado presa era o contraponto dessa consciência de merecimentos. Ter estado presa, literalmente presa, não lhe arrancou a lancinante dor. Não lhe arrancou Janaína da cabeça. Não lhe arrancou aquela lembrança, a mais funda, a menos dizível, a nunca pronunciada, a apavorante lembrança de.
Esther pensava nessas coisas, pensava no impensável quando o telefone tocou.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Gisela entendera algo remoto quando encarou-se no espelho (isso esteve em seus olhos há quanto tempo, nem indagou-se, perplexa). Temeu a revelação. Era forte descobrir que. Era como cair num poço. Acostuma-se ao poço? Lera certa vez que sim: à pedra do poço, à água do poço, ao poço do poço acostuma-se. Mas, Gisela sentiu vontade de sair. Sair do poço. Pois, entendera que de poço em poço se morre. E morrer, em algumas ocasiões: dói.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Um pouco de Esther ou do rompimento do silêncio de Gisela

 "Em suas meias brancas, sete oitavos, saia de colegial, cabelos presos em um rabo de cavalo longo e simples, saía a ouvir música em seu walkman.
Mascava chicles e irritava metade dos professores com suas gigantescas bolas na sala de aula a estourarem em sua cara causando risos em toda a turma.
Não sabia seu lugar no mundo.
Fumava escondido no vão da escada. E aquela era toda a subversão que conhecia.
Trepava com o namoradinho no carro do pai. Rebolava macio, nuazinha em pêlo. Desistira, após conhecer Janaína, de estar com qualquer outro homem.
Olhava Janaína de forma fixa, apaixonada.
Um dia, deu-lhe um beijo no pátio do colégio e saiu.
Toda a escola rira.
Era mais uma dela.
Tatuou o corpo. Colocou piercing. Apavorou as freiras.
Saiu do colégio.
Voltou com cabelos curtos, azuis. E os chicles.
A barriga crescera, pontuda. Era menino.
Meias, tricôs. Chá de bebê. Janaína e o namorado.
A paixão enfiada no íntimo.
O menino com cara de nada. Em seus braços. Os peitos a derramarem leite e vida. A vida na boca daquele que gestara e a quem teria que aprender a amar.
Pintou a boca de vermelho. No contorno. Para fora dele.
Hoje, trancada em um hospício, cabelos desgrenhados. Roupas brancas e poucas palavras. Entre elas: Janaína. Janaína".

O assunto era tabu. Mas, foi o que Gisela jogou primeiro na cara das duas irmãs quando as ouviu chamarem M de "o talzinho". E assim o fez rompendo um silêncio de três dias. Esther calara-se por um momento e caminhou até o toca discos. Lá, pode encontrar ainda o disco Fa-tal - Gal a todo vapor. Acendeu um cigarro, colocou a vitrola que há anos não rodava disco algum para funcionar e girou as duas irmãs na sala cantarolando com lágrimas no rosto e sorriso na boca:

"Não choro,
Meu segredo é que sou rapaz esforçado,
Fico parado, calado, quieto,
Não corro, não choro, não converso,
Massacro meu medo,
Mascaro minha dor,
Já sei sofrer.
Não preciso de gente que me oriente,
Se você me pergunta
Como vai?
Respondo sempre igual,
Tudo legal,
Mas quando você vai embora,
Movo meu rosto no espelho,
Minha alma chora.
Vejo o rio de janeiro
Comovo, não salvo, não mudo
Meu sujo olho vermelho,
Não fico calado, não fico parado, não fico quieto,
Corro, choro, converso,
E tudo mais jogo num verso
Intitulado
Mal secreto
"

As duas rodopiavam com caras assustadas. Pararam, sentaram-se, cada uma servida com uma dose de Whisky barato puseram-se a conversar.

Das divisões

"A gente separa os livros, mas não separa as leituras que fizemos destes mesmos livros, tantos com dedicatórias, outros com histórias muitas...
A gente separa os cd’s, mas não separa os dias todos em que ouvíamos música trancados em seu quarto, em silêncio e sob a expectativa de um futuro feliz juntos...
A gente separa os filmes, mas não separa a experiência de vê-los a cada um juntos, observando os cochilos do outro, rindo com as reações mais pueris e sinceras, emocionando-se com a emoção do outro, falando pouco e entendendo muito, as vezes segurando as mãos, outras não segurando o tesão...
A gente separa as contas a pagar, separa os móveis, separa as roupas de dentro do armário, mas não esquece os lugares aonde fomos juntos, as tantas viagens que fizemos juntos, não esquece os muitos aniversários, as longas conversas antes de dormir, as aventuras fogosas que o desejo não deixava nunca que parássemos de viver, as gratas surpresas, os projetos muitos, as realizações parcas (mas felizes), os consolos nas horas ruins, as flores de repente, o número da camisa errado, a febre curada com mel escondido na caneca de chocolate quente, o cuidado, o carinho e a amizade, o toque mais provocante e a palavra mais engraçada...
A casa fica sim vazia de um de nós, mas as marcas da convivência levaremos por um bom tempo na memória do corpo, na falta daquilo que já não sabemos mais nomear de tanto separar..."

Fora isso, oh Esther, fora isso que dissera Gisela ao talzinho quando este veio, por fim, buscar as caixas que a ela cortavam o coração e deixavam uma esperança que só ela sabia nutrir de que conversassem e reatassem de uma vez elimando maus entendidos, ciúmes e um tanto de orgulho ferido! Indigna-me a irracionalidade de nossa intelectual irmã. Agora está ali, jogada na cama, com um pijama grosso, de flanela, num calor de 40 graus, a cara inchada de muito chorar e não fala uma palavra comigo há mais de três horas. Já inventei as mais diferentes doenças para cada pessoa da Universidade que liga para cá querendo saber o motivo de sua ausência logo hoje na reunião de departamento. A essas alturas, cada um já deve ter entendido ou que ela  levou um baita pé na bunda e que, por isso, não consegue se quer levantar-se da cama ou estão todos preparados para um velório em breve, pois tanta doença numa só pessoa: venhamos ou convenhamos...
Indigna-me tudo isto na única de nós que viajou para o exterior para fazer doutorado, sob as lágrimas de mamãe e sob a proteção financeira total de papai!

Fora isso que falara Alice a Esther que olhava impaciente para todos os lados. Impacientava-se com o relato em tom competitivo de Alice e com a insistência dramática em sofrer de Gisela.
E eu, eu não entendia muito essas vozes todas, todas inclusive parecidas, macias, guardavam como que uma semelhança assutadora. E eu que estava dentro de um ônibus urbano me limitei a pegar uma caneta e anotar as principais informações.

Qual o susto quando abri a porta de meu apartamento e lá encontro a cena que precariamente escrevera em pedaço de papel?