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sábado, 23 de abril de 2011

Esther não entendia que força era aquele que possuía Janaína para entrar e sair de sua vida quando assim desejasse ou ainda mesmo quando nem mais desejava. Esbravejou contra dois ou três pensamentos que a atingira. Aquele mês, desde a conversa com Gisela, desde que sua irmã trouxera à tona aquele assunto, tinha sido um inferno. Voltara a fumar. Voltara a percorrer as ruas todas. Voltara a ouvir o choro abafado da criança que ela não permitia falar o nome, não permitia que...Gisela sofria, sim, mas onde o direito de fazer aquilo? Onde? Lembrara-se, Esther, de que ficara trancada por tempos, e...Não. Decididamente não mais. Mas, como?

As palavras e os sentimentos de Esther me chegavam assim: entrecortados e confusos. Escrever essas três mulheres não seria nada fácil. E eu? Me pergunto a mim: e eu, onde eu?

terça-feira, 12 de abril de 2011

Encontrara uma moça que lembrava Janaína. Não sabia exatamente o que naquela lembrava esta. Um jeito de olhar, um sorriso cativante...Não decifraria cedo assim. Era o primeiro contato. Tem fogo? Um sorriso e o fogo. Está frio aqui, não? E pôde ver as mãos da moça esfregarem-se uma contra a outra num gesto de consentimento. Pensar em consentimento era aquiscência para o seu coração dilacerado pela recordação antiga. Fumaram juntas aquele cigarro há tempos guardado na bolsa. Era o último de uma promessa antiga: deixar de fumar. Mas o ressurgimento daquela história era como uma permissão, um acordo tácito: cada cigarro um dia a menos? Toparia suicidar-se para reaver os abraços de...
Pensar demais era o que estragava todas as tentativas de sentir depois de tudo. E ela, que era cerebral, vivera até aqui meio insensível e à parte de toda a sensualidade que se não reprimira, escondera de si sem saber o que dela fazer.
Fumar, sentir o frio clima do lugar de esquina e observar pelo simples prazer do olho. Era a princípio o que deveria fazer.
Esther sabia disso e assim o faria.
Olhou-se no espelho e entendeu que sentia medo. Medo de viver e medo de morrer. Queria morrer e continuar vivendo. Sentia medo de sangue e medo de conviver por muito mais tempo com a grande dor que penava. Sabia que todos irião visitá-la e que depois todos voltavam para as suas vidas. E ela permanecia só de uma solidão feroz. Não queria mais. Porém gelava quando pensava aqueles pensamentos que deveriam ser secretos para não assustar aqueles que, ela sabia, fingiam importar-se. Olhou o telefone e pensou em ligar para as irmãs. Gisela corrigiria provas, Esther estaria a fazer qualquer outra coisa. Por que sua vida não era exata ou plenamente sua? Por que sentia daquele jeito?


Eram as dúvidas e certezas que pairavam no ar da casa de Alice bem dentro de seu coração
Acordaram, as três, cada uma em sua casa, com muita vontade de não acordar.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Pensava em fazer uma longa viagem. Elegeria dois lugares no máximo e o máximo de tempo em cada um deles. Sabia que se ficasse, depois daquela conversa, procuraria o rosto de Janaína em todas as esquinas.

Era o que Esther gostaria muito de não apenas pensar, mas fazer.

Gisela

Ficara pela primeira vez em dias sozinha. Sentiu que tudo o que fizera foi, assim, necessário. Lembrava agora insistentemente de tempos outros, antigos, bem antigos e assustou-se quando se olhou no espelho. Era, então, hora de voltar?

Esther

Quando o vento batera-lhe na cara também trouxera chuva. Era tão sensória aquela sensação! Pensou no nome proibido e quase falou assim bem alto e com liberdade na rua. Mas gritara apenas: táxi, táxi!
Entrara e percorrera caminhos outros que não os para casa.

Alice

Assim que saiu a chuva não cessou de cair. Caminhara até o ponto de táxi perplexa. Gostava até que ponto dos pingos assim em sua cara? Ria tristemente. Aquela conversa despertara lembranças outras. Lembranças puxam lembranças e seria necessário um ouvidor eterno...Onde lera aquilo? Viera mesmo de sua cabeça? Alice estava perturbada. Via no rosto de Esther, sua irmã, a falta do filho, seu sobrinho, que morrera tempos atrás ou vira algo mais sombrio que ela mesma não se permitia imaginar no momento?
Táxi, táxi!
A lama em seu vestido seria o mínimo para dia tão longo.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Um pouco de Esther ou do rompimento do silêncio de Gisela

 "Em suas meias brancas, sete oitavos, saia de colegial, cabelos presos em um rabo de cavalo longo e simples, saía a ouvir música em seu walkman.
Mascava chicles e irritava metade dos professores com suas gigantescas bolas na sala de aula a estourarem em sua cara causando risos em toda a turma.
Não sabia seu lugar no mundo.
Fumava escondido no vão da escada. E aquela era toda a subversão que conhecia.
Trepava com o namoradinho no carro do pai. Rebolava macio, nuazinha em pêlo. Desistira, após conhecer Janaína, de estar com qualquer outro homem.
Olhava Janaína de forma fixa, apaixonada.
Um dia, deu-lhe um beijo no pátio do colégio e saiu.
Toda a escola rira.
Era mais uma dela.
Tatuou o corpo. Colocou piercing. Apavorou as freiras.
Saiu do colégio.
Voltou com cabelos curtos, azuis. E os chicles.
A barriga crescera, pontuda. Era menino.
Meias, tricôs. Chá de bebê. Janaína e o namorado.
A paixão enfiada no íntimo.
O menino com cara de nada. Em seus braços. Os peitos a derramarem leite e vida. A vida na boca daquele que gestara e a quem teria que aprender a amar.
Pintou a boca de vermelho. No contorno. Para fora dele.
Hoje, trancada em um hospício, cabelos desgrenhados. Roupas brancas e poucas palavras. Entre elas: Janaína. Janaína".

O assunto era tabu. Mas, foi o que Gisela jogou primeiro na cara das duas irmãs quando as ouviu chamarem M de "o talzinho". E assim o fez rompendo um silêncio de três dias. Esther calara-se por um momento e caminhou até o toca discos. Lá, pode encontrar ainda o disco Fa-tal - Gal a todo vapor. Acendeu um cigarro, colocou a vitrola que há anos não rodava disco algum para funcionar e girou as duas irmãs na sala cantarolando com lágrimas no rosto e sorriso na boca:

"Não choro,
Meu segredo é que sou rapaz esforçado,
Fico parado, calado, quieto,
Não corro, não choro, não converso,
Massacro meu medo,
Mascaro minha dor,
Já sei sofrer.
Não preciso de gente que me oriente,
Se você me pergunta
Como vai?
Respondo sempre igual,
Tudo legal,
Mas quando você vai embora,
Movo meu rosto no espelho,
Minha alma chora.
Vejo o rio de janeiro
Comovo, não salvo, não mudo
Meu sujo olho vermelho,
Não fico calado, não fico parado, não fico quieto,
Corro, choro, converso,
E tudo mais jogo num verso
Intitulado
Mal secreto
"

As duas rodopiavam com caras assustadas. Pararam, sentaram-se, cada uma servida com uma dose de Whisky barato puseram-se a conversar.

A solidão iluminada

"Como amava ouvir aqueles discos mesmo que sozinha.
Que vida tão louca imaginava ouvindo as composições daquele que era o seu compositor predileto.
De repente o clarão.
Deu partida no carro e correu para a praia.
Deserta a margem. A lua invadia a cidade, a beira-mar, espalhava-se no oceano como uma moça bonita e cheia de si encarava-se em um espelho.
Desligou os faróis, sentou-se. Sentia o cheiro salgado invadir-lhe todo o ósseo corpo.
E a lua.
Compreendeu que era sozinha.
Riu de si para si.
Voltou para o apartamento.
Ligou o som.
Apagou a luz.
E agora em sua sala pensava: que lua, meu Deus!"

Fora esse o texto que Gisela esboçara um pouco antes do fim com M. Preferia falar M. M era despessoalizado, era uma letra que, algum dia, poderia julgar qualquer. Mas, não. M rasgou-lhe o coração com um só golpe quando, em silêncio, deixara as chaves de casa em cima da mesa da sala de estar e dissera apenas:
- Volto para buscar as coisas quando você estiver mais calma.
Ali M deixou de ser letra qualquer para ser a marca de sua vida. Digo de Gisela.

Alice se aborrecia com Gisela, Esther se impacientava com as duas. Mas, Gisela chorava dia e noite, telefonava para M, ficava muda, faltava às aulas na universidade onde ensinava e não podia mais ler, não mais assistia a filme qualquer...Gisela entendia apenas, ao reler o seu texto, que era só e que escrevia piegas, nunca conseguiria ser uma escritora de verdade. E, assim, à margem do que mais amava, ela se consolava em ser professora universitária e em perder o seu grande amor para uma crise boba da ciúmes.