quarta-feira, 4 de maio de 2011

Enquanto Esther se voltava completamente a não esquecer-se de Janaína e, dessa forma, reviver todas as angústias do passado, inclusive dores que ainda não elaborara e enquanto Alice se esforçava para não amar, Gisela ria dentro dela. Descobria seu corpo, suas vontades e, ao se permitir, descobria coisas bonitas. Gisela estava sendo. Essa era a graça: Ser. Gisela era. Tinha sido há muito tempo e, agora, sentia como era especial  dividir, compartilhar tudo isso consigo mesma e com o outro. Ser simples era a maior complexidade. E ela atingia essa complexidade. Atingia sentir o vento em sua cara, em sua alma, em sua vida. E, por tudo isso, ria.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Alice e Esther por um tempo sumiram? Gisela sequer conseguia sentir solidões. Gisela, por esses tempos era puro encantamentos. Sorria, sozinha, antes de dormir. E sentia como se o tamanho do mundo a invadisse antes do sono mais profundo. Sonhava coisas lindas e acordava sem pensar em M. Ao menos da forma anterior. E achava que deveria ligar para Alice, para Esther. Eram irmanadas de uma maneira não apenas consanguínea. Sabiam. Mas. Eram alguns "mas" o que embargava tanta coisa boa na vida, pensava simplesmente (e como demorara para atingir a simplicidade!) Gisela. Fazia café pela manhã, bem cedinho, com o principiar do dia. Bebia-o em canecas (como gostava), assoprando um pouco de esperança para a sua vida. E assim o fazia porque isso era bom. E ela queria o bom da vida. Queria.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Porque Gisela entendia que viveria para sempre essa coisa de altos e baixos, não queria dizer que não a afetasse quando lhe ocorriam as mudanças. Estava tão feliz há poucos dias e acordara sentindo-se menos. Ao fim do dia, era o cocô do cavalo do bandido. Não compreendia algumas coisas, outras admitia que para todo o sempre a acompanhariam. Queria mesmo era não poder ouvir algumas coisas, algumas palavras-opiniões. Vivera até ali tantas coisas, mas sua pele e seu coração ainda eram frágeis, apesar de tudo. Sobreviveria a essas e a mais outras coisas sim. Mas, hoje, Gisela era menos e a subtração cortava-lhe a pele. Talhava-a. Doía.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Gisela abismava-se sempre e cada vez mais com as coisas que (lhe) aconteciam. Lia os sinais. Morria de medo de estar delirando. Morria de felicidade por achar que não estava delirando. Abria as janelas do quarto. Deixava o vento entrar. E sorria, sorria, sorria, meu Deus! Gisela sorria. Achava graça das coisas que pensava. E sentia que sim, sim, sim, sim.
Gisela acordou de um cochilo entendendo o posicionamento de sua mãe. Agora sim compreendia as decisões dela e as execuções do que ela decidira há tempos (antes mesmo do nascimento das filhas?) e executara mexendo com a vida de Gisela e de suas irmãs. Mas, Gisela compreendia agora exatamente porque chegava perto de chegar às mesmas conclusões de sua mãe. E começaria a executar, seguindo os mesmos caminhos, mas não de maneira imperceptível para si mesma. Era questão de tempo, sabia. Era o que lhe sobrava, como fora o que sobrara à sua mãe.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Alucinante Alice



Alice resolvera ler aquela carta que guardava há anos. Colocou música na vitrola (mister se fazia o procedimento) e ouviu:

"Dentro do nosso mundo
Um outro mundo achaste
E as cores de que fala
Eu não conhecia
Alguma coisa havia antes desse espaço
No oco da nogueira um tombo no infinito
De cada biscoito tiraste um pedaço
Pode ouvir teu grito
Alucinante Alice quando você fala
Meu coração se quebra como louça
Alucinante Alice quando você beija
O mel dos anjos entra em minha boca, em minha boca, em minha boca
A porta da verdade estava bem fechada
Mas nada resistiu a chave que eu te trouxe
Da que de onde se vê ainda não se vê nada
Se não se tem os dentes presos nesse doce
De limão galego de laranja amarga, de batata doce

Alucinante Alice quando você fala
Meu coração se quebra como louça
Alucinante Alice quando você beija
O mel dos anjos entra em minha boca, em minha boca, em minha boca

A porta da verdade estava bem fechada
Mas nada resistiu a chave que eu te trouxe
Da que de onde se vê ainda não se vê nada
Se não se tem os dentes presos nesse doce
De limão galego de laranja amarga, de batata doce
Alucinante Alice quando você fala
Meu coração se quebra como louça
Alucinante Alice quando você beija
O mel dos anjos entra em minha boca, em minha boca, em minha boca"

Abriu a carta. Olhou-a bem, sem lê-la. Dobrou-a e guardou-a primeiro próximo ao peito, depois: dentro da caixa de onde a havia retirado.
O ritual lhe fora bastante para ela saber que nunca mais. Sempre racional, saberia levar sua vida até o fim com aquela decisão. Mirava a vida das irmãs (e a dela mesma) de soslaio. Evitaria. Para sempre evitaria ler aquilo que partira seu coração apenas uma vez na vida. Para nunca mais. Nunca mais. Precisava repetir em voz alta. PARA NUNCA MAIS!

Saberia Alice que também a sua própria vida ela olhava de soslaio? Saberia ela que nada mais era verdade e nem a tirava do torpor e da solidão?